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O amor é tarja preta: cura mas vicia, salva mas tem a saudade como efeito colateral.

Eu me lembro da gente viajando para a praia. Primeiro você e eu. Depois, você e eu e os nossos. Lembro do nosso jeito de fechar as malas imensas, eu aperto dos lados e você puxa o zíper, da nossa pressa em sair de casa cedo pensando escapar do trânsito, do cansaço bom de chegar ao nosso destino sob um sol generoso e descarregar o carro com pressa, afoitos pela vida.

Lembro da alegria das crianças na praia, do nosso cachorro olhando o mar assustado, respeitoso, encolhido ao nosso lado como quem sente segurança em nossa companhia e não quer incomodar os desconhecidos em volta.

Das nossas conversas de virar a noite eu também me lembro. Lembro do nosso silêncio bom, nossa cumplicidade, nossas conspirações contra os inimigos do mundo. Eu me lembro dos nossos sábados em casa e de nossas leituras de tarde inteira. Lembro das noites com os meninos no hospital, não mais que meia dúzia de vezes, Deus é bom! Tanto quanto era bom passar na farmácia na volta, cuidar deles em casa e assisti-los ficando bons de novo no dia seguinte. Felicidade mesmo é ver os filhos da gente esbanjando saúde. Eu me lembro.

De quando a gente se casou, eu me lembro bem. A festa, a igreja, o padre, a sensação de amor infinito por você, por nós, por tudo e por todos. Lembro de um desejo irracional e bonito de estar ali para sempre.

Não sei você, mas eu me lembro dos nossos feriados prolongados, do sujeito gordo que nos alugava um aparelho de karaokê e entregava em casa, como era mesmo o nome dele? Lembro do almoço no quintal, do churrasco, da cantoria. Do tempo passando rápido. E eu me lembro de no último instante do domingo à noite, um segundo antes de pegar no sono, sentir aqui dentro uma gratidão tão grande pela vida e um desejo bom de trabalhar com empenho a semana inteira. Fazer por merecer o feriado seguinte.

Eu me lembro de segurar a sua mão e descer ao seu lado até o inferno, de onde saímos juntos tantas vezes, chamuscados mas inteiros, íntegros, esforçados, prontos para outra.

É estranho, mas eu também me lembro dos sonhos que esquecemos num canto de sala, dos planos que deixamos lá atrás, de tudo o que sempre quisemos e nunca fizemos. Eu me lembro, eu me lembro de tudo.

Lembro como se fosse agora. Porque no fundo é tudo agora mesmo. O tempo é uma ilusão. Passado e futuro não passam de outros nomes para o presente insuspeitado e inevitável de sempre.

Então eu me lembro da gente neste instante mesmo. Você aí, no seu canto do mundo que eu não sei onde fica, e eu aqui, sonhando com você que ainda não veio. E que eu já nem sei se existe.

André J. Gomes

http://www.revistaletra.com.br/ Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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