Conhecimento

O IMPORTANTE NÃO É A CASA ONDE MORAMOS. MAS ONDE, EM NÓS, A CASA MORA

Adoro a prosa poética de Mia Couto. Entre tantos livros, tenho preferência por meu primeiro exemplar: “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”. Revisito suas passagens e me aprofundo em suas reflexões carregadas de sensibilidade e poesia. Uma delas, em particular, me atrai: “O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora”.

Alguns lugares permanecem vivos dentro da gente, independente do tempo em que vivemos neles. Sobrevivem ao tempo, às despedidas e desistências, às necessidades de se seguir em frente, ao desapego. Resistem como alicerces tão firmes quanto foram as lembranças, e mesmo sendo objetos, perduram repletos de memórias.

Não morei naquela casa, mas durante algum tempo foi o lar de meus pais. Antes do bilhete de despedida, era lá que passávamos os finais de semana, entre pães de queijo do sul de Minas e conversas na varanda, enquanto meu filho e sobrinho experimentavam as primeiras brincadeiras. Era uma casa grande, centenária, tombada pelo patrimônio histórico, com janelões do tamanho de portas, e altura do teto a perder de vista. Uma casa bonita do interior que se destacava na descida da Matriz em direção à praça do coreto.

Ainda me lembro da última noite. Já tinha fotografado seus cômodos e agora a estante da sala reinava vazia, restando apenas a televisão. Preferimos nos distrair da realidade e assistimos ao filme recém lançado de Arnaldo Jabor: “A Suprema felicidade”. De lá vinha a frase: “Nada é só bom”, e entendiamos que aquele momento era o nosso “não bom”, mas ainda assim seria revisitado muitas outras vezes, como um refúgio de lembranças e saudades.

Um ano depois, de férias pela região, esbarramos na casa aberta à visitação pública. Era época de natal, e ali funcionava uma feirinha de artesanato comemorativa. Entrei de mãos dadas com o filhote e na cozinha chorei. Chorei não pela falta da casa, mas sim pela presença viva dela dentro de mim. Por enxergar minha mãe abrindo o forno e eu ajudando com a louça. Por ouvir a voz dos meus irmãos através da musiquinha natalina e imaginar momentos que não tiveram chance de existir. Por sentir vapores que só eu conhecia. Vapores de vida, amor, nascimentos, despedidas, alegrias e tristezas.

Não havia mais nada de nosso lá. Ainda assim, aquelas paredes tinham tanto a dizer. Sabiam de um tempo nem sempre fiel ao que se esperava dele, mas um tempo bom.

A casa permanece à venda. Espero que os novos proprietários tenham sonhos, muitos deles, e que todos se realizem naqueles corredores e varandas. Que coloquem uma mesa grande na sala de jantar e discutam desde o preço da empadinha do Vadinho até os rumos da política atual. Que as crianças andem de patins pelos cômodos e façam uma sessão de cinema no tapete da sala. Se houver um casal, que saibam envelhecer juntos, e passeiem de mãos dadas pelas ruas da vizinhança. Que as flores do jasmim manga sejam colhidas no chão e oferecidas pelas crianças às suas mães. E que as paredes contem um pouco de nossa história àqueles que virão, para que cuidem com delicadeza daquilo que um dia quis ser parte de nossa eternidade.

Mia Couto tem razão. Já não importa mais a casa onde morei. Importa sim, a casa dentro de mim. Sabendo que vou me lapidando a partir do que existe, mas também daquilo que vivi e deixei partir. Entendendo que minha fachada não é somente o reboco visível, mas sim muitos outros alicerces imperceptíveis aos olhos. Descobrindo que também abrigo palavras não ditas, caminhos não escolhidos, sonhos não realizados. Aceitando a vida como ela é, cheia de acertos e imperfeições, percalços e contradições, desafios e realizações..

 

Fabíola Simões

Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

Recent Posts

Agência espacial irá pagar 28 mil reais para quem aceitar ficar 10 dias na cama

Se a ideia de ficar na cama por dias parece um sonho, uma nova oportunidade…

18 horas ago

O polêmico “teste do sal e pimenta” em entrevistas de emprego: Você passaria?

Não é a primeira vez que você já escutou sobre os testes imprevisíveis, com perguntas…

18 horas ago

Cientistas confirmam que a viagem no tempo é possível e já aconteceu

A ideia de viajar no tempo sempre fascinou a humanidade, inspirando filmes, séries e teorias…

18 horas ago

Nova série de Seth Rogen recebe 95% no Rotten Tomatoes e conta com elenco impressionante

Recentemente, a nova produção estrelada por Seth Rogen vem conquistando o público e a crítica.…

19 horas ago

Bombeiro revela que este eletrodoméstico apresenta maior risco de incêndios em casa; Descubra como evitar

A segurança doméstica é um tema essencial, e quando se trata de incêndios, muitos imaginam…

22 horas ago

3 Comportamentos que podem arruinar relacionamentos e como evitá-los

Relacionamentos são parte essencial da vida, desde amizades até parcerias amorosas e conexões familiares. Todos…

22 horas ago